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Existe mesmo uma identidade Latino-Americana? Uma comparação com a experiência da União Europeia.

Murillo Rodrigues dos Santos


É muito interessante quando acadêmicos do mundo se ajuntam para comentar sobre a política, economia ou antropologia Latino-Americana – especialmente Espanha e Estados Unidos: Particularmente são dois países muito interessados no futuro desta região, tanto pelo potencial produtor, consumidor ou cultural. Esse interesse tem fomentado estudos diversos que tem surgido nos campos acadêmicos e contagiado o sistema político internacional.

O processo da criação de blocos econômicos e transnacionais bem sucedidos, como a União Europeia, tem levantado questões importantes sobre o futuro comercial, militar, político e social do mundo: Onde podem chegar os países quando se trata de temas de integração?

O processo de criação da União Europeia tem sido um interessante laboratório para se pensar sobre as questões que podem impedir ou impulsionar um projeto de união das nações: Vinte e oito estados membros independentes, com várias línguas totalmente diferentes (Francês, Italiano, Alemão, Inglês, Grego, Castelhano, etc.), com leis diferentes, sistemas políticos diferentes, e culturas relativamente diferentes. Isto sem contar a longa história de conflitos entre estes países, que culminou nas duas grandes guerras mundiais. Mas como pensar o sucesso da União Europeia dentro destes moldes?! Com este panorama poderíamos dizer que a Europa possuía algum tipo de identidade comum? NÃO! Mas afinal de contas, quais foram os méritos da Europa para conseguir tornar-se um modelo de integração transnacional? Em minha opinião, identifico dois fatores: Um político e outro cultural.

Sobre o ponto de vista político, existem muitos comentaristas que podem fazer uma análise mais profunda e exaustiva sobre isto, mas em relação ao cultural acredito que posso dar uma opinião um pouco mais técnica. Primeiramente, acredito que a Europa identificou a necessidade de reconstrução de suas políticas depois da Segunda Guerra Mundial, pela visão de que os modelos existentes caminhavam para o esgotamento de seus recursos. Desta forma, acredito também que, uma das maiores dificuldades do primeiro momento foi em construção de um projeto de integração foi abrir mão das ideias de uma identidade nacional. Neste sentido, podemos ver e entender qual o poder que a cultura impetra sobre uma nação.

A cultura de um país pode ser compreendida como um conjunto de informações que conforma uma determinada população. Estas informações são condicionadas por um contexto histórico, moral, religioso, comportamental e, antes de tudo, sob um idioma. Este que é um conjunto linguístico de símbolos dotados de um significado particular para um conjunto populacional, que serve como padrão para estabelecimento de regras de conduta. Desta forma, pode-se identificar fatores responsáveis pela formação e manutenção de uma cultura: A história dotada de significado para um grupo específico, mediado por uma linguagem própria, por um conjunto de comportamentos habituais, interesses econômicos comuns, sendo todos mantidos por uma educação familiar e institucional.

Neste modelo a União Europeia foi muito eficaz ao abordar pontualmente todas estas questões: Uma zona de livre comércio, uma moeda forte que atendesse às necessidades dos países membros, uma zona de livre circulação, políticas integradas de desenvolvimento das nações, o programa Erasmus Mundus ao fomentar o intercâmbio acadêmico e o Processo de Bolonha na área da educação, todos na tentativa de formar cidadãos europeus. Olhando para este contexto, torna-se impossível pensar a política de integração europeia isolada do seu contexto cultural, que foi criado para dar condições para os acontecimentos que se seguem há mais de 60 anos no “Velho Mundo”.

Toda esta história nos faz refletir sobre o avanço propiciado pela União Europeia em termos de economia, desenvolvimento, paz e educação e sobre as “desculpas” para uma não aproximação entre os países da América Latina.

O sonho de unir a América Latina não é algo novo, e nem uma iniciativa de povos europeus ou norte-americanos interessados nos lucros comerciais que isto pode gerar: Simón Bolívar (1783-1830), o responsável pela independência de seis países (atuais) latino-americanos já possuía a imagem de uma América Espanhola Unida. Outro visionário na questão de uma união de nossos países, sob uma alcunha controversa e revolucionária, foi Ernesto Che Guevara (1928-1967), líder da Revolução Cubana e guerrilheiro que implantou ideias socialistas na América Latina, em conjunto com Fidel Castro (1926-), outra polêmica figura internacional. Mas porque estes dois antecessores não obtiveram total sucesso em seus planos de unificação? Em comparação com a história europeia, pode-se observar que estas tentativas foram militares, e não tiveram a democracia como agente, além de contar com as pressões políticas internacionais de países contrários à ideologia operada por estes.

Existem ainda outros fatores além dos políticos no atraso das relações diplomáticas dos países latino-americanos: O atraso econômico e social, refletidos em políticas arcaicas de líderes democraticamente eleitos por massas de pessoas com baixo índice de educação eleitoral e social. Isto reflete-se em práticas de grupos políticos com interesses de manutenção de projetos de poder, atrasando o desenvolvimento das nações, tornando países da América Latina como latifúndios do poder de famílias políticas em uma democracia manca. Mas estes fatores ainda são muito “políticos” para nossa análise.

Em se tratando de Antropologia e Psicologia Social Latinoamericana, pergunta-se: O que há de comum na América Latina? Pode-se falar de Latinoamericaneidade? A psicóloga brasileira D’Ávila (2009) argumenta ser muito difícil em se pensar nestes termos, dizendo que existem muitas coisas que nos fazem diferentes entre os outros, mas que existem elementos que podem ser considerados em comuns: Países que nasceram da exploração colonialista da Península Ibérica (Portugal e Espanha), filhos de uma tradição católica, que por si só traz toda uma ética própria e relação com o sistema político e financeiro (Weber, 2004), que também sofreram com a imigração de “páreas sociais europeus” gananciosos em busca de enriquecimento, de modo a formar uma sociedade miscigenada à nativa através do sexo com indígenas e africanos. Apesar desta sociedade da ganância e da exploração alocada em território sulista (Galeano, 2009), nossas terras sofreram de uma industrialização tardia. Ora, sobre tudo isto pode-se notar semelhanças, mas nenhuma delas é correspondente ao idioma – se a União Europeia gira em torno de 24 idiomas, a América Latina gira ao redor de 2 (Português e Espanhol), sendo línguas foneticamente muito próximas e de fácil manejo e compreensão mútua.

Desta maneira, o que está posto é o diagnóstico da América Latina, onde pode-se tomar os “irmãos mais velhos” (europeus) como modelo de aprendizado, para gerar políticas públicas eficientes para o desenvolvimento mútuo, mas isto só será capaz quando os objetivos de nossas nações estiverem claros, e quando as nossas mazelas se tornarem objetivos a serem superados. Países como o Brasil, por exemplo, primaz econômico na América Latina, tem dado alguns exemplos de políticas públicas, que de forma ainda tímida, começam a desenhar-se como modelos para repensar as políticas existentes no mundo: O Programa Ciência Sem Fronteiras (Sciences Without Borders), promovendo a mobilidade acadêmica e cultural de talentos brasileiros para o mundo, somado ao Programa Universidade para Todos (Bolsas de Estudos para Graduação), o Plano Real (uma moeda relativamente forte e estável), o Programa Bolsa Família (de Assistência Social Emergencial à famílias pobres), se tornaram exemplares de políticas públicas de transformação social, mas que tem sofrido de ingerências relativas à má administração públicas nos últimos anos, todavia servindo como norteadores para a Ação Governamental na busca de melhorias efetivas na vida da população.

E para terminar este texto, identifico a chave da questão da integração Latino-Americana em uma reorientação de visão política: Basta olharmos para os pilares da democracia pintados pela Revolução Francesa (1789-1899) de Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Muitos países tentaram e fracassaram a integração de seus países através da criação de Blocos Econômicos privilegiando a Liberdade Econômica (Nafta, Mercosul, Caricom, etc.), outros privilegiaram a Igualdade Social (Antiga URSS, por exemplo), mesmo sob o uso da força; Mas acredito que o sucesso da unificação, demonstrado sobre a luz da União Europeia, veio sobre uma concepção de que os três pilares são igualmente fundamentais e interdependentes, de modo que, o abre-alas para o sucesso destes, só pode se encontrar, na Fraternidade entre os povos.


Referências

D’ávila, M. I. (2009). Identidade da psicologia social latino-americana. Em Guareschi, P. Paradigmas em psicologia social: a perspectiva Latino-Americana. Petrópolis: Vozes.

Galeano, E. (2009). As veias abertas da América Latina. São Paulo: Paz e Terra.

Weber, M. (2004). A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo: Companhia das Letras.


Sobre o Autor

Murillo Rodrigues dos Santos, 22 anos, é Psicólogo pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (BRA), com extensão em Democracia, Políticas Públicas e Latino-americana pela Brown University (EUA), e Políticas Sustentáveis pelo Centro Universitário de Goiás (BRA). Pesquisador internacional sobre Famílias Latino-Americanas em situação de vulnerabilidade social. Atualmente trabalha como Consultor, Analista e Gestor de Recursos Humanos na Área Comercial, empreendedor através da Rede Goiana de Psicologia. Ex Bolsista da Fundação Botín e do Banco Santander Brasil.